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X-Acto

Os x e os actos e algumas coisas de cortar os pulsos



Segunda-feira, 15.07.13

Somos todos nós a geração sem princípios

Contrato polémico do BPN leva BIC a exigir ao Estado cerca de 100 milhões

 

 

Foi a notícia do dia, esta de que o BPN não só nos custou os impostos que andamos penosamente a desembolsar como ainda irá requerer que paguemos ao seu comprador.

O BPN é um capítulo muito triste na história da chico-espertice portuguesa. Porque é, sobretudo, uma história de chicos-espertos que se deram bem perante uma sociedade anestesiada e amputada de meios para lhes fazer frente. E é por tudo isto que me é tão difícil falar do BPN. Queira ou não, ao revisitar cada passo desta infelicidade portuguesa tenho de revisitar a infelicidade de sermos como somos.

O BPN devia ser elevado à categoria de badge, algo semelhante àquela caveira que simboliza perigo de morte junto de determinado tipo de equipamentos. Devia acender-se um badge BPN junto de determinados negócios, determinadas empresas, determinados governantes e devia ser impossível apagá-lo para que, onde quer que fosse, estivesse bem visível que dali só vinha perigo.

Continuariam a existir BPNs? Provavelmente. Há pessoas que colocam deliberadamente as suas vidas em perigo. Mas seria diferente. Melhor que o badge só uma outra alteração, porventura mais eficaz. A maldade, a batotice e a falta de escrúpulos deveriam ser assinaladas com manifestações físicas. Uma verruga aqui, uma borbulha ali, um esgar que não se desfaz. E os autores ver-se-iam todos os dias ao espelho em metamorfose enquanto persistissem no dolo. Quando questionados sobre o porquê da verruga, da borbulha ou da boca torta, tenderiam a mentir. Nesse momento, a manifestação física acentuava-se, pondo em evidência o dolo. Pinóquio, portanto, mas em meninos crescidos.

Voltando ao BPN e ao papel da banca nos trágicos acontecimentos que marcam a economia portuguesa e mundial desde 2008, mas que foram sendo inflamados durante largos anos antes da Lehman Brothers rebentar pelas costuras. Vale a pena ver ou rever Wall Street - O dinheiro nunca dorme. Vale a pena ouvir Michael Douglas, aka Gordon Gekko, 20 anos mais velho, a gritar "Greed is Good" (erradamente traduzido no filme por 'a ambição é boa', é de ganância que se trata). Vale muito a pena a sequência da palestra na universidade em que um Gekko recém-saído da prisão, ao fim de oito anos de cadeia por tráfico de influências, lança um livro sobre o mundo financeiro, um mundo que está muito pior em 2009 (data do filme) do que em 1993 (data do primeiro Wall Street).

 

Someone reminded me i once said 'greed is good', now it seems it's also legal

 

Nessa primeira sequência, Gekko ironiza com a sua assistência universitária que, em vez de melindrada, lhe aprecia o estilo *: "Vocês são a geração sem rendimentos, sem emprego e sem princípios".

Sem princípios. A falta de dinheiro - que decorre naturalmente de não termos rendimentos ou emprego - não nos torna melhores pessoas, mais puras, mais empenhadas na verdade e no bem. Não é assim que funcionamos, nós os humanos. E é por isso que fazer revoluções de barriga vazia é mesmo muito difícil, senão perigoso, e é também por isso que a educação primeiro e o emprego depois são pilares básicos de uma democracia saudável.

Quanto menos se tem, mais prospera a chico-espertice. Por oportunidade (há mais pessoas a submeterem-se ao que sabem estar errado) ou por sedução (há mais pessoas a quererem embriagar-se no que está errado).

O BPN é uma história em cadeia de pequenas chico-espertices que se tranasformaram na grande chico-espertice. É uma história de figurões, tantos deles condecorados e homenageados pelo bem que fizeram à pátria e aos conterrâneos. É uma história de ignorância. Também está retratada no Wall Street - O dinheiro nunca dorme quando os banqueiros se reunem com o secretário de Estado do Tesouro para debater a enorme factura de impostos que vão apresentar aos contribuintes americanos de forma a suportar as suas aventuras de ganância e dolo. "Falamos em risco sistémico e fica toda a gente assustada". Risco sistèmico, onde é que já ouvimos isso? Pois. No BPN. E nos outros todos iguais. Se não quiserem ficção, há relatos da realidade. Os relatos da banca irlandesa, por exemplo.Ou as explicações que existem de pessoas que merecem credibilidade e que ainda assim pouco mais conseguem do que shares no Facebook.

Não se fazem revoluções sem educação, sem emprego e menos ainda de barriga vazia. Hoje mesmo o INE deu conta que em 2012 existiam dois milhões de portugueses a viver em privação material.

Ninguém quer saber do BPN, a não ser em fúrias momentâneas. Como esta, hoje, aqui, no dia em que sabemos que, no mínimo, ainda vamos pagar - todos nós, com os nossos impostos -  mais 100 milhões de euros ao generoso comprador do BPN. Ninguém quer saber que o esforço destes anos em que a miséria que nunca tinha sido realmente erradicada se voltou a mostrar de forma compungente, despida de visas improvisados e créditos ao consumo, não  sirva para mudar o país mas tão somente para garantir o mesmo status quo que alimenta gerações de chicos-espertos. Ninguém quer mesmo saber e nisso somos todos nós a geração sem princípios.

Nos Estados Unidos, os Gordon Gekko, pelo menos alguns, passam uns anos na cadeia.

 

(*) É tema para outro post este deslumbramento das audiências por quem as trata mal. De certa forma, é esse o truque do 'nosso' guru do empreendedorismo, Miguel Gonçalves.

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por sparks às 21:10



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