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X-Acto

Os x e os actos e algumas coisas de cortar os pulsos



Quarta-feira, 24.07.13

“Uma rosa com outro nome realmente não cheira tão bem”

 

 

A história tem piada. The Cuckoo's Calling é um romance policial de Robert Galbraith. Teve excelentes críticas, mas vendas nem por isso. Apenas cerca de 1500 exemplares em quase três meses. Há cerca de duas semanas, tudo mudou. Um tweet de uma desconhecida entre tantos desconhecidos do Twitter transformou um livro discreto num best seller. A culpa foi de Judith Callegari. Na realidade, a culpa foi da melhor amiga de Judith Callegari, casada com Chris Gossage, advogado na firma londrina Russells. Reza assim pelo menos a história oficial de como, da noite para o dia, o policial de Robert Galbraith foi revelado ao mundo como o novo livro de J.K. Rowling, a consagrada autora de Harry Potter. A escritora milionária garantiu ter ficado mais que desapontada. Escrever sob psedónimo, afirmou, tinha lhe dado uma sensação única, libertadora. Os putativos leitores dos seus livros e demais curiosos ficaram eufóricos - tanto que a sua editora tratou rapidamente de uma nova edição de 300.000 exemplares. Os seus advogados, equipa a que pertence o autor da inconfidência conjugal, garantiram que nada disto fez parte de um plano de marketing. 


Mas a história tem piada também por outras razões.

“Podemos recusar uma proposta ou ideia que seja apresentada pela pessoa errada ou então seguir cegamente os conselhos de alguém com grande prestígio”. Os grandes manipuladores sabem (ou intuem) que é assim, tal qual Orin e Rom Brafman descrevem no livro "Irracional" de que já falei neste blog. É terrível estar nas mãos de um manipulador, mas a verdadeira questão de fundo é que a percepção governa o mundo. Há exemplos clássicos. Um clássico dos clássicos está ao nível do novo livro de Rowling. Joshua Bell, um dos maiores violinistas, foi um certo dia desafiado pelo Washington Post a tocar no Metro. E ali, no metro, foi apenas mais um a tocar por uns cobres, sem aplausos, vénias e bravos. Igualmente divertida é a história de Nathan Handwerker e dos seus cachorros quentes em Coney Island. Para vencer a concorrência, Nathan ofereceu cachorros mais baratos  - (10 cêntimos versus cinco cêntimos) - e ninguém comprava. Porquê? Porque as pessoas desconfiavam dos ingredientes. Algo devia estar errado, para ser mais barato. Nathan não desistiu e ofereceu pickles e cerveja sem álcool. Não resultou. A sorte de Nathan só mudou quando convidou os médicos do hospital em frente para experimentarem os cachorros, ficando a comê-los cá fora, de bata e estetoscópio colocado ...

 

Daqui para a frente, não deve ser difícil cada um desfiar o seu próprio rosário de falsos positivos. Gente que tem sucesso apenas porque, supostamente, já representa sucesso. Na forma inversa, temos aqueles cujas ideias originais, por serem verdadeiramente originais, sofrem até ao dia em que alguém com poder de decisão aceita o desafio de algo novo. Na era da inovação e do dito empreendedorismo, esta decisão pode ser surpreendentemente difícil. Lembro-me de uma das frases mais exemplares que ouvi sobre estas matérias, a propósito de um projecto que nunca tinha sido feito.

Pergunta quem decide: 'já alguém fez isso?'

Respondem os autores do projecto: 'não, ninguém, seremos absolutamente pioneiros.'

Decisão de quem decide: 'se ainda ninguém fez, é porque não deve valer a pena.'

 

Sobre isto, dizia Shakespeare, uma rosa com outro nome não cheiraria tão bem. Não vejo como se pode dizer melhor.

 

Nota de rodapé: Sou tentada a acreditar que Rowling está absolutamente inocente e que a manipulação, a existir, não é dela. Talvez não haja manipulação de todo e esta seja mesmo só uma história exemplar de como formamos opinião. Ou talvez seja só o meu lado sentimentalão a falar. Comecei a ler Harry Potter numa espécie de pacto de leitura com a minha amiga Helena, quando ainda só se ouvia falar do fenómeno 'Potter' fora de Portugal. Devorámos em contra-relógio o nº 1 da saga, num Verão a banhos no Algarve com crianças a tiracolo. O meu filho começou assim a ouvir falar daquele que seria durante anos o seu herói, a minha filha ouvia repetidamente que era parecida com a Hermione e o meu sobrinho até se deu ao luxo de partir a cabeça e fazer uma cicatriz à Potter. Há muita magia nisto tudo para não acreditar, pelo menos um pouquinho, no conto de fadas.

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por sparks às 23:03



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