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X-Acto

Os x e os actos e algumas coisas de cortar os pulsos



Domingo, 11.08.13

Livros e vaginas. Isso. Livros e vaginas.

 

Mamas, rabos e sexo em geral. São sucesso garantido 'na internet'. Quem trabalha profissionalmente nesse hemisfério - o do 'online' - sabe bem o que isso significa (por profissionalmente, quero também dizer que me refiro a pessoas que seguem regras, valores, padrões e que não estão na terra do vale tudo). Ora, na 'internet', sites, blogs, páginas de facebook, contas de flickr, instagram, tweets, you name it, todos sabem ou aprendem rápido que algumas partes das morfologia humana são particularmente eficazes na caça ao clique (1). E na tera do 'vale tudo', desesperados (por atenção) e oportunistas lá fazem este caminho.

 

E vem toda esta conversa porque hoje o melhor título para o texto que estou a escrever tem a palavra 'vagina'. Vagina é uma palavra muito curiosa, sobretudo pelo seu carácter intimidatório para homens e mulheres. Muito mais que mamas (nada intimidatório) e pénis (idem). E vem isto a propósito de duas conversas que tive esta semana com duas mulheres, cada uma extradordinária ao seu jeito, e que me levam a escrever sobre um tema tão de salão como os livros e e tão intímo como vaginas. Encontrar duas interlocutoras capazes de falar, uma delas, de um tema de salão com a intimidade de quem tem verdadeira paixão pelo que faz (livros), e outra delas, de um tema íntimo com a naturalidade e simplicidade de uma conversa de salão (as mulheres e as suas vaginas) é obra. Melhor ainda quando, sendo conversas distintas, percebo mais tarde que ao falar de livros falámos de motivos íntimos e ao falar das 'coisas 'intimas' percebemos que merecia um livro. Uma coincidência que só deu mais sal a essa tarde.

 

1ª conversa: Com uma editora que não precisa de salão para ser seguramente um dos nomes por onde vai passar o futuro da edição de livros em Portugal. Uma conversa sobre poder, influência, ética. Sobre o poder e o risco como território moderno do homem das cavernas (que sai para ir à caça e assim domina e sustenta a tribo e a família). Sobre o poder e o dinheiro, o dinheiro e o sucesso, o sucesso e a necessidade de reconhecimento. O medo, a (má) relação com a autoridade e com o sucesso dos outros. A incapacidade de distinguir entre pessoas bem sucedidas, pessoas 'bem nascidas' e pessoas simplesmente conhecidas. A vertigem dos likes, dos shares, as redes sociais como novo palco de julgamento do êxito/fracasso de uma vida, uma ideia, uma iniciativa, uma mera frase.

Os livros que foram escritos sobre tudo isto e os livros que fazem falta escrever.

'O' livro.

 

2ª conversa: Com uma fisioterapeuta, 'a fisioterapeuta' que já tomou (boa) conta de várias gerações de mães em Portugal (incluindo a minha), dotada de uma capacidade extraordinária para tornar simples o que parece difícil e falar do vulgar sem qualquer sombra de vulgaridade. Uma conversa sobre coisas de que não se fala, perguntas que não se fazem, mistérios da vida íntima. Sobre pudor, sobre vergonha e as paredes da normalidade. 'Como é que faz xixi? Como é que faz cocó? Quando tem sexo doi-lhe a vagina? Onde? Ai doutora, não pergunte essas coisas, eu sei lá'. E eu a imaginar no relato de quem me conta, a sala da Maternidade Alfredo da Costa repleta de mães, avós, grávidas de primeira viagem, mulheres de idades, estilos de vida, origens tão diferentes, todas elas ali sentadas numa sessão para que perdessem o medo de falar ... da vagina. Ou, como alguém lhe tinha chamado 'a testa da boca do mundo', uma das muitas designações que esta fisioterapeuta ouviu em quase 20 anos de trabalho diário com mulheres e para melhorar a vida das mulheres.

 

O melhor de tudo isto? Saber que vou ter o privilégio de trabalhar com estas duas mulheres. Estou feliz por isso.

 

(1) Uma boa nota é o trabalho desenvolvido diariamente por alguns jornalistas, técnicos, designers e equipas que trabalham o meio 'web'. A pressão de resultados rápidos que toda a indústria de media sente poderia fazer supor que a discussão ética, humana ou simplesmente de bom senso estaria em extinção. Não está e tenho o privilégio de trabalhar num desses sítios com algumas dessas pessoas.

 

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por sparks às 14:10



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