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X-Acto

Os x e os actos e algumas coisas de cortar os pulsos



Sábado, 24.08.13

A Europa vista daqui - Como um sueco engata uma alemã a caminho da Dinamarca

 

A resposta é simples: não engata. O que poderia retirar todo o interesse à pergunta, mas na realidade não. Porque a parte mais interessante deste episódio reside precisamente nessa forma asséptica, educada, correcta de estabelecer contacto, vulgo meter conversa.

Então começa assim. Estamos na gare de Hamburgo a caminho de Copenhaga e as gentes atropelam-se em todas as direcções. Há famílias atrapalhando-se com bagagens, mochilas e casacos, como nós, há executivos-tipo-moderno de ipad em riste, há executivos-tipo-tradicional de pasta preta de computador pela mão, há louras, morenas e às cores em traje de Verão, há hippies, hipsters, pós-hippies, até acho que pós-hipsters, casais, gente sozinha, muitos twenty something.

E há este twenty something em concreto que esbarrou com aquela twenty something em concreto ainda antes do embarque e- voilá - estão na mesma carruagem. Que é a nossa carruagem onde estamos dispostos cada um em seu lugar porque os vouchers internacionais entram (nesta linha pelo menos) na rubrica de lugares não marcados. Uma pequena nota para dizer que tenho viajado de combóio em quatro países, esta viagem foi a que fez mais sentido no que respeita a reservas de lugares.

 

O twenty something sueco louro de barba meio rala, cabelo cuidadosamente desgrenhado e óculos próprios do look de um qualquer 'lab' é simpático, afável, sabe coisas sobre a Dinamarca - destino da alemã. E nem começa mal a conversa, fazendo uma referência suficientemente breve mas suficientemente explícita ao facto de ter namorada e já ter feito aquela viagem com a namorada. Diz quem gosta de escrever sobre 'relações' que as mulheres se interessam por homens 'ocupados' - eu cá tenho dúvidas de natureza diversa e de experiência igualmente diversa sobre estas regras universais, mas seja. E, se assim for, o nosso sueco estava a fazer o processo by the book.

Tão by the book que eu, sentada no banco atrás do deles (um compartimento de quatro lugares em que o sueco ficava de frente para a alemã, por sua vez sentada ao lado da minha filha, estando eu exactamente atrás da minha filha) me desinteressei da conversa. Depois de uns minutos do igualmente vulgar passar-pelas-brasas, acordo com vontade de regressar ao livro de férias. E seria essa a história da viagem não tivesse sido interrompida, breves minutos depois, por uma conversa em tom monocórdico mas aplicado. Levanto os olhos e é ele, o sueco que mete conversa com a alemã. Agora fala de glutén e do problema que isso trouxe à namorada do irmão. Com detalhe, note-se. Como o tema tem elastecidade q.b. distraio-me a pensar onde é que aquela conversa o vai levar. Leva-o muitos minutos à frente e aí a situação ganha outros contornos. Quem é que consegue manter mais de 30 minutos de conversa com uma desconhecida explicando detalhadamente as limitações impostas pela intolerância ao glúten - à namorada do irmão! - e, perante a sua total indiferença (hum-hum, ham-ham eram as únicas sonorizações que se ouviam na fronteira alemã) decide avançar destemidamente para a enumeração das diferenças técnicas na forma de extrair glúten na Alemanha e na Suécia???

Rapaz, não vás por aí! Há uma vontade incontrolável de ligar um semáforo vermelho ou apitar com uma buzina. E ele continua aplicado, e ela continua desinteressada, e o combóio embala-nos a todos nas imediações naquele constrangimento tornado colectivo e a coisa ganha tais proporções que até a minha filha é, ela sim, sim extraída ao seu universo 'ipod+auscultadores-romance' para se virar para trás e dizer: 'este deve ser o pior engate ever'. Tem 15 anos. Pouca experiência, mas muita intuição nestas coisas.

O que se segue são mais duas horas à Benfica 2012-2013, naqueles minutos que separavam os 90 minutos do fim do jogo. Puro desespero. Ao glúten seguiu-se … o Google. Boa! O sueco tem um projecto com o Google. Vislumbra-se algum interesse da alemã, até faz perguntas (coisa que até aí não tinha sucedido). Go boy, Google, Facebook, Youtube, mesmo uma qualquer startup sem qualquer futuro mas com lot's of style é canja! Vantagem imediata - you're on top of the world, man! O que é que o sueco faz? Começa a detalhar o projecto que tem o Google, produz divagações chatas, aborrecidas e absolutamente inconsequentes sobre o teor do que se propõe fazer e tal como um balão perde o ar, assim vai a conversa. Há um breve pique de atenção quando se refere ao colega de projecto com ar pesaroso - por momentos, chegamos todos (sim, já há várias pessoas a acompanhar o enredo por esta altura) a pensar que há uma qualquer história trágica-heróica-romântica com que vai finalmente chamar o alvo à sua beira. Mas não. O colega é só um tipo pouco interessado e isso deixa-o a ele desmotivado.

O italiano do banco ao lado volta ao jornal, o chinês volta a ressonar, a minha filha volta a colocar música nas orelhas. E eu fico a pensar nisto tudo. A alemã decide mostrar que dormita - e sim, a esta altura nada sabemos dela - e o sueco rende-se. Dormita também.

Poucos minutos antes de chegarmos a Copenhaga tem lugar a investida final. Agora ou nunca. O rapaz sueco com mestrado e a caminho do PhD aponta baterias à beleza das viagens, ao facto de ele e a namorada viajarem bastante, nem sempre juntos porque ambos concordam na importância de ter 'experiências diferentes e conhecer outras pessoas'. Ui. Até queima. Há forma mais correcta e sensaborona de dizer o que supostamente quis dizer? A alemã aí mostra de que matéria é feita. Fala dos pais, da casa de Verão da  avó que até poderia ser a sua casa permanente, mas do facto de não pretender criar raízes antes dos 30 porque 'devemos aproveitar para viajar e andar pelo mundo enquanto somos novos e ainda podemos'. Para tese sensaborona, tese sensaborona e meio. 

Há qualquer coisa no rosto do sueco que nos diz que já percebeu a derrota. Assume um ar profissional, abre o computador, pede-lhe o endereço e diz que lhe vai enviar enviar um email para ela depois poder responder. Estamos quase em Copenhaga. Com um ar nervoso, ainda titubeia que se o combóio atrasar um pouco, talvez perca a ligação a Estocolmo, seu destino final. Ela sorri plasticamente e sossega-o que não irá acontecer. Game over.

 

Quando paramos, é finalmente possível ver os dois lado a lado. Ela não é assim tão bonita, nem tão especial, mas tem ali uma qualquer força, uma qualquer certeza. Ele, se não o tivéssemos visto a despenhar-se no abismo, era até bem mais interessante. Mas depois disto já não conseguimos fazer justiça à (boa) máxima do Woody Allen de que só as pessoas muito superficiais não julgam os outros, em primeiro lugar, pelas aparências.

 

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por sparks às 21:44



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