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X-Acto

Os x e os actos e algumas coisas de cortar os pulsos



Segunda-feira, 21.10.13

Toda a nossa vida, em democracia, tem sido passada a escolher o mal menor, na merda da política, é isso sujar as mãos.

Pequeno resumo para quem não leu a entrevista de Clara Ferreira Alves ao ex-primeiro-ministro José Sócrates. O homem estudou e precisa dessa legitamação 'intelectual'. Acho bem, mesmo pecando pelo excesso de efeitos especiais. (se tivesse sido enxovalhada publicamente por ter obtido méritos académicos por favor, faria o mesmo, seria mesmo a minha prioridade número 1). O homem não tem pejo no uso da palavra. Uma merda é uma merda, um estupor é um estupor ('a merda' da política e o 'estupor' do Schauble, ministro alemãos das Finanças). Acho bem, mesmo com o desconforto de ser dito na 'estilo' Sócrates. Estou absolutamente farta da tribo que para dizer 'vou-te lixar' diz que 'vamos proceder a um ajustamento tendo em vista a correcção de problemas estruturais'. O homem não se verga (mesmo quando, às vezes, devia aceitar a vénia). Acho bem, mesmo que haja aquela grande dose de teatro própria do protagonista. Num país que vive a pedir desculpa, a curvar-se perante a força e não perante a razão, num país que perdeu respeito por si próprio, sabe bem algum desplante, mesmo alguma desta teatralidade.

Dito isto, José Sócrates continua a ser José Sócrates. Um actor, um 'animal feroz' (apesar desse epíteto ter sido uma maldade que o Expresso lhe fez, segundo diz nesta entrevista), um egocêntrico. Continua o José Sócrates que acha Miguel Relvas 'um gajo decente' e que se indigna quando lhe perguntam sobre amigos como Armando Vara ('eu admito lá a alguém juízo moral sobre os meus amigos''). Continua perito no drible. Não se falou de PPPs e do seu mandato directo a Paulo Campos que nos vai custar mais de 1000 milhões de euros. Defendeu qual mero soldado de Keynes aumentos escabrosos na Função Pública em ano de eleições (o mesmo Sócrates que garante não receber ordens de ninguém na Europa não pode dizer que cumpriu ordens da Europa para estes aumentos). Justifcou que não sabia o que 'aquilo' era - 'aquilo era o BPN, 'aquilo' são mais de 3 mil milhões de euros desembolsados por todos nós, 'aquilo' é a  desfaçatez do tal arco do poder em Portugal, o país em que polítcios, advogados, doutos consultores e homens de negócio, sempre os mesmos, são de facto uma casta acima da lei.
Dito isto, seria só mais uma entrevista. Já houve outras. A célebre da RTP em vésperas de regressar como comentador.
Seria só mais uma entrevista, não fosse o detalhe, em on, e na voz directa, dos momentos que precederam o resgate de Portugal pela Troika.
Do relato exaustivo da negociação com Berlim, do jantar com Merkel e o 'filho da mãe' do Schauble, da cumplicidade com Durão Barroso na construção do PEC 4 para evitar o resgate. Da partilha dessa negociação com Pedro Passos Coelho e com Cavaco Silva antes da apresentação pública. E da decisão tanto de um como de outro, na altura líder da oposição e Presidente da República, respectivamente, de invocarem o desconhecimento de tudo isto para provocar a crise política. Não sou ingénua ao ponto de dizer que foi'o desconhecimento de tudo isto a provocar a crise política que levaria ao resgate'. A ferida é muito recente e  não parou de sangrar desde então. E nestas circunstâncias não se vê a pele, não se vê o corte, não se vê a carne. Tudo se sobrepõe num só.
Mas o ponto, para mim, é só um.
A não ser que tenha existido um desmentido convicto, formal e indignado destas afirmações de José Sócrates, Pedro Passos Coelho construiu uma vitória eleitoral e um mandato subsequente assente numa mentira primeira. Cavaco Silva apadrinhou.E a vida continuou, igual como sempre.
"Toda a minha vida foi passada a calcular o mal menor, na merda da política, é isso  sujar as mãos", resume José Sócrates. 
Toda a nossa vida, em democracia, tem sido passada a escolher o mal menor, na merda da política, é isso sujar as mãos. As nossas mãos, de todos nós.
Da entrevista de Clara Ferreira Alves a José Sócrates
Expresso, 19 outubro 2013
(*) 'Negociei com a Europa e com Barroso e com o BCE a solução. Se eles estivessem de acordo, assinavam por baixo. Foi difícil. A parte final foi o jantar com a Merkel, e fui a Berlim porque ela teve a decência de me convidar. Noutro jantar ficara ao lado dela e ela dissera que gostaria de dar uma palavra em defesa do nosso país e dar um sinal claro aos mercados. (...)Em fevereiro ou março de 2011, a Grécia e a irlanda já estavam em programa. A Europa não queria mais ninguém. Em Berlim, tudo muito formal, conversámos e fomos jantar. A Merkel está do outro lado com aquele estupor do ministro das Finanças, o Schauble, que foi agora corrido. Todos os dias esse filho da mãe punha notícias nos jornais contra nós. (...) No jantar, ela pô-lo ao lado para o comprometer. Disse: devo ser a única na Alemanha que acha que vocês não precisam de ajuda! Eu respondo-lhe que não se trata apenas de Portugal, se houvesse mais um caso de falhanço era mau para nós e para a Europa. E disse que propusera o PEC previamente negociado com o BCE e com a Comissão, de forma a evitá-lo. O programa era restritivo para contar o apoio do BCE. Merkel respondeu: é isso mesmo! (...) Regresso de Berlim e acho que temos isto feito. Tínhamos uma semana para concluir o negócio. (...) Chamei o Passos Coelho para lhe dar conta da situação (...) Passos Coelho sempre disse que não sabia de nada. 'Mentiu e deixou que outras pessoas mentissem. Ele sabe o que me disse'
Da crónica de Clara Ferreira Alves | A história universal da infâmia
Expresso, 19 outubro 2013
'Como conta Sócrates na entrevista que hoje se publica, Barroso sabia o quanto este programa tinha custado a negociar e concordava com a sua aplicação, preferível à sujeição aos ditames da Troika, numa clara perda de soberania que a Espanha de Zapatero e depois de Rajoy evitou. Pedro Passos Coelho foi a São Bento e concordou. O resto, como se diz, é história e não é contada por José Sócrates que um dia a contará toda. No livro [Resgatados, de David Dinis e Hugo Coelho], conta-se que uma personagem chamada Marco António Costa, porta-voz das ambições do PSD, entalou Passos Coelho entre a espada e a parede. Ou havia eleições no país ou havia eleições no PSD. Pedro Passos Coelho escolheu mentir ao país dizendo que não conhecia o PEC4. Cavaco acompanhou. E José Sócrates demitiu-se, motivo de festa na aldeia. (...) Entre os portugueses e a luxúria do poder, Pedro Passos Coelho escolheu o poder. Fica registado.'

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por sparks às 00:39



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