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X-Acto

Os x e os actos e algumas coisas de cortar os pulsos



Terça-feira, 08.07.14

Eu e Suzanne Vega

À primeira sílaba que roçou o microfone, sabia que estava em casa.

Ela estava ali, naquele espaço onde pertence, primeiro com o seu chapéu alto e depois com a viola, a viola que a acompanha há 25 anos. Há mais anos, na realidade, mas são 25 anos na minha vida e este é um post pessoal, meio piegas e completamente nostálgico sobre Suzanne Vega na minha vida.

Agora que está dito, vamos lá a isto.

 

Ela é Suzanne Vega. E ela foi a banda sonora de um certo tempo na minha vida. Acabo por escutá-la, pela primeira vez ao vivo, num outro tempo da minha vida, num outro tempo da vida dela. E esse foi um dos desafios da noite de domigo no EDP Cool Jazz, porventura o festival mais gentil do país, onde me pareceu que tudo pairava. Pessoas, sombras, luzes, vozes baixas, telemóveis tímidos e nada exibicionistas, mantas na relva. E ela, a Suzanne.

 

No tempo da minha vida que ela sonorizou, eu lia letras de músicas escritas em forros de capas de vinil. Um dos fascínios das histórias e da poesia musicada é que se ouvem vezes sem conta e, sabendo que são iguais, contagiam-nos como diferentes a cada estado de espírito. Muitas vezes depois de muito ouvidas, transformam-se no estado de espírito. E quando uma música consegue isso, ela entrou definitivamente na nossa vida, onde quer que estejamos.

 

Ontem, durante minutos, eu estive numa sala semi-vazia, como soalho de madeira bonito, luz clara. Uma sala que acolheu as conversas e silêncios sobre o que seríamos aos 25 anos. E estive numa despedida, num dia em que soube sem saber que as coisas iam mudar. É nessa memória e nessa projecção, na solidão, na cumplicidade e numa estranha esperança que tudo se componha, que Marlene on the wall soa mais inteira.

 

Even if I am in love with you
All this to say, what's it to you?
Observe the blood, the rose tattoo
Of the fingerprints on me from you.

 

(...)

And I tried so hard to resist
When you held me in your handsome fist
And reminded me of the night we kissed
And of why I should be leaving

 

 

Marlene watches from the wall
Her mocking smile says it all
As the records the rise and fall
Of every soldier passing.

But the only soldier now is me
I'm fighting things I cannot see
I think it's called my destiny
That I am changing.

 

Na plateia dos jardins do Marquês de Pombal, a voz de Suzanne Vega trouxe um aconchego de lar a uma noite que se seguiu a um dia de inverno. A intimidade revela-se nos detalhes e Vega é um compêndio de detalhes. Gosto especialmente do detalhe que decorre de ninguém elevar a voz, de ninguém se atrever a mais do que murmurar. Isso enquanto ela canta como se respirasse, uma respiração que é ao mesmo tempo múrmúrio, suspiro, cansaço e fôlego.

 

A noite continua. 

Vamos ter tempo de ouvir uma história de amor que acaba mal.

Vamos ter que pensar como a solidão deixa o poder mais e mais sozinho.

Tudo isto numa voz franzina extraordinariamente poderosa.

 

The soldier came knocking upon the queen's door
He said, "I am not fighting for you any more"
The queen knew she'd seen his face someplace before
And slowly she let him inside.

 

(...)

 

"Tell me how hungry are you? How weak you must feel
As you are living here alone, and you are never revealed
But I won't march again on your battlefield"
And he took her to the window to see.

 

A doce Vega, que também ela paira na noite, foi ganhando controlo da situação. Ou na realidade, sempre o teve. É esse afinal o supremo truque da fragilidade e da doçura.

Não foi tudo perfeito. A mim, sabe-se lá porquê, fez-me falta ouvir Straight Lines.

Ficou na exacta medida daquele bocadinho mais de azul antes do perfeito, aquele bocadinho que me fará ouvi-la, noutro sítio qualquer, noutra noite qualquer.

 

Today I am
A small blue thing
Made of china
Made of glass

I am cool and smooth and curious
I never blink
I am turning in your hand

 

P.S. - Vega não é uma história de passado. Aliás, Vega é uma história com graça para ser contada também por causa dos negócios da música (talvez o negócio mais premonitório dos nossos tempos?!). Mas o que importa mesmo é dizer que Tales from the Realm of the Queen of Pentacles, o mais recente trabalho da miúda de negro, vale a pena ser ouvido. Em especial, e porque ela veste negro, a música “I Never Wear White”.

 

 

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por sparks às 00:25



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