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X-Acto

Os x e os actos e algumas coisas de cortar os pulsos



Terça-feira, 22.07.14

"Lembrem-se que há muitas maneiras de ser inteligente"

Este é um daqueles momentos em que dá uma súbita vontade de escrever. Porque o tema é do-mais-importante-que-há, muito mais importante que primárias no PS, crises no BES, desculpem GES, e greves de professores. Sobretudo porque é na atenção que damos a este tema que todos os outros se decidem.

 

Acabo de ler no Observador um artigo sobre o que os psicólogos de Harvard acham sobre a forma como andamos a educar os nossos filhos. O artigo, intitulado 'Está a educar os seus filhos para serem boas pessoas? Os psicólogos de Harvard acham que não', tem alguns maneirismos que pessoalmente me irritam (já lá vamos), mas faça-se a devida vénia pela oportunidade do tema. E o tema é a voracidade com que despejamos competências nas nossas crianças e jovens e descartamos emoções, sentimentos, actos de pura humanidade. Aos 6 anos, qualquer criança de pais competentes já passou no mínimo por 3 actividades, teve experiências 'inesquecíveis' a propósito dos anos, das férias de verão, dos workshops da Páscoa e assim lá está ela devidamente preparada para entrar na escadaria escolar onde degrau a degrau se tornará cada vez mais funcional. E, por mais que todos, os genuínos e os cínicos, juremos a pés juntos que não vamos asfixiar os seres humanos que mais amamos em desafios, experiências e competências, asfixiamos sim. E esta maratona da criação, torna-se uma verdadeira corrida de 100 metros da perfeição. Para serem perfeitos, os nossos filhos desenvolveram desde a mais tenra idade actividades que promovem a inteligência, a capacidade de associação, relação e solução de problemas, a criatividade, a destreza, e continuarão imparáveis nessa escalada da dita educação. É uma escalada que não para nunca, não nos iludamos. Continua pela adolescência, com novos 'desafios e experiências'. Ser voluntário é obrigatório, fica bem no curriculum e no facebook da mãe ou do pai, ir para Erasmus é obrigatório, todos vão, como é que o 'nosso' não iria?

Não me levem a mal. Sou tão culpada destes pecados como aqueles de quem troço. Terei provavelmente caído na maior parte das armadilhas que aqui descrevo, valha-me poder dizer em consciência que não o fiz pelo CV das crianças, mas posso muito bem ter feito pela ansiedade que outros pais sentem, a de proporcionar aos filhos todas as possibilidades para que possam escolher e conquistar alguma, pelo menos alguma, liberdade.

 

Mas o artigo do Observador não é sobre isso. É sobre expectativas em relação à humanidade. E as expectativas que temos sobre a nossa humanidade serão certamente a melhor definição das expectativas que temos para o resto do mundo. O que esperamos / pedimos / cobramos dos nossos filhos passa não só a mensagem do que valorizamos - neles e no mundo - mas passa mais do que isso. Passa-lhes uma visão do mundo, recorta-lhes a janela pela qual devem olhar tanto para dentro de si como para o mundo que os rodeia. E é aí que as coisas ficam verdadeiramente perigosas.

A maior dádiva que tenho por ser mãe é a generosidade. Os meus filhos fizeram de mim uma pessoa muito melhor e neste caminho de mãe tenho procurado devolver-lhes essa bondade. Isso passa por inúmeros actos quotidianos, presentes quando comentamos uma notícia, um episódio que aconteceu no trabalho ou na escola, ou numa ida ao cinema. 'Estás a chorar porquê?', esta pergunta feita pelos meus filhos, sempre que me viram chorar, e sobretudo quando eram pequenos demais para ouvirem a verdade em modo adulto, acabou quase sempre por ser das maiores oportunidades para partilhar essa fragilidade de sermos humanos, de perdermos, de nos entristecermos, de ficarmos sozinhos por vezes. Sorrir no dia a seguir ao choro faz mais pela confiança do que qualquer manual sobre como educar as crianças para serem positivas (arghhhh).  Procurando na minha memória esses preciosos momentos em que somos mais humanos, é inevitável lembrar-me de alguns difíceis. Aqueles que porventura mais nos testam. Porque um filho foi rejeitado por um amigo, porque não é tão cool como os mais cool da escola, porque não sabe dar a volta ao professor. Aí a injustiça do mundo explode na nossa cabeça e em segundos de cegueira apetece mandar valores às urtigas e contar-lhes à descarada o pior da humanidade e descarregar todo o manual de cinismo para 'vencer' na vida. Inspiramos, expiramos, resistimos. E cada vez que isso nos acontece, ganhamos. 

 

Lembro-me de um episódio das Donas de Casa Desesperadas em que as ditas comentavam os métodos de avaliação da escola em que os filhos (com menos de 10 anos) estudavam. Uma escola progressista que não atribuía notas, mas sim agrupava as crianças por espécies animais como forma de estimular o respeito pela diferença e atenuar a competividade 'entre iguais'. Todas as mães achavam o máximo, uma coisa progressista, moderna. E depois chegavam a casa e começavam a extorquir dos filhos em que espécie estava o amiguinho A, B e C para a partir daí extrapolar se o seu filho era mais ou menos esperto.

Está na nossa natureza competir. Mas também está na nossa natureza continuar. Por muito redondinha que possa parecer a lapalissada, a verdade é que a História tem muitos momentos de ânimo, entendido como a vitória sobre o mal. O nosso problema é que derrotamos muito mais facilmente o Grande Mal do que o Pequeno Mal de todos os dias e aí sim precisamos de uma verdadeira revolução emocional e de derrubarmos os nossos clichés de sucesso e de vitória.

E nem de propósito, leio de seguida este post da Ana Neves. Passo a citar o teor da carta enviada pela Escola Primária de Barrowford, em Inglaterra,,no final do ano letivo:

 

“Por favor encontrem em anexo os resultados dos vossos testes[...]. Estamos muito orgulhosos por terem demonstrado um grande empenho e terem dado o vosso melhor durante esta semana complicada.

Porém, estamos preocupados que estes testes nem sempre avaliem aquilo que torna cada um de vós especial e único. As pessoas que criaram estes testes e os avaliam não vos conhecem [...] Não sabem quantos de vós falam duas línguas. Não sabem que conseguem tocar um instrumento musical ou dançar ou pintar. Não sabem que os vossos amigos contam convosco para os ajudar quando precisam ou que o vosso sorriso consegue alegrar o pior dos dias. Não sabem que escrevem poesia e canções, praticam desporto, imaginam o futuro, ou que às vezes tomam conta dos vossos irmãos mais novos depois da escola. [...] Não sabem que vocês são de confiança, gentis e atenciosos, e que tentam, a cada dia, dar o vosso melhor… as vossas notas dirão alguma coisa, mas não dizem tudo.

Por isso, alegrem-se com os resultados e orgulhem-se deles mas lembrem-se que há muitas maneiras de ser inteligente.”

É simples, afinal das contas.

 

P.S. - Gostei que o Observador tivesse trazido o tema a debate, não gostei nada do texto em forma de '6 coisas que deve fazer para criar um filho bondoso'. Ajude a criança a tornar-se numa pensadora e líder ética? Lá estamos nós a complicar.

 

P.S.2 - E depois destas leituras, encontrei no mural da Paula Torres Carvalho um poema do Rubem Alves. Começa assim: "Quero viver ao lado de gente humana, muito humana". É isto, é bom.

 

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por sparks às 18:10



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