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X-Acto

Os x e os actos e algumas coisas de cortar os pulsos



Quinta-feira, 14.05.15

Pode devolver-me o meu clique?

Devia ser possível. Tal como devia ser possível fazer dislike e não apenas like e voto contra em vez de ter de escolher outro qualquer partido que nem nos interessa assim tanto como 'voto a favor'.

A caça ao clique assume proporções gritantes.

Editores, jornalistas, vendedores de publicidade, gestores de media, profetas da next big thing, estamos todos desesperados. E o desespero assenta-nos tão mal.

Trabalho num meio de comunicação digital. Onde as notícias e as não-notícias são medidas ao segundo. Qualquer um de nós, editor, sabe quase instantaneamente o 'que vai dar' e o que 'não vai dar'. É pior acertar do que não acertar. Porque é uma espécie de cheiro a queimado - não deixa dúvidas. E está a perverter o trabalho de muitos e bons jornalistas, de muitos e bons editores. 

Há meia dúzia de regras básicas e estamos todos, aparentemente, a achar normal sermos avaliados por essas regras.

O título tem de criar suspense. Porque o suspense leva ao clique. Por exemplo: saiba como se chama a nova princesa. Não interessa nada. É um fait divers de página cor-de-rosa promovido a notícia de primeira linha. Mas convém que o título seja 'saiba como se chama a nova princesa' ou algo parecido. E não algo estupidamente óbvio como a nova princesa chama-se Charlotte Elizabeth Diana.

Um conteúdo - note-se, conteúdo, não artigo - ganha outro interesse - leia-se comercial / audiência - se puder ser desmultiplicado em lista. Se a lista puder ser ilustrada em galeria de fotos, melhor ainda. E assim temos as 15 coisas que nunca deve dizer ao seu filho e as 10 coisas que deve sempre dizer ao seu filho, bem como os 20 alimentos que lhe salvam a vida e os 15 alimentos perigosos para a saúde. Tudo gráfico: uma imagem, um título, uma legenda, explicações breves, tantas vezes parcas e incompletas, mas completamente ajustadas à atenção disponível desta nova espécie que andamos a treinar, o leitor online.

E, claro, há o preço. A cotação no mercado online mede-se em RPM - Receita por cada mil cliques. Se o RPM for de 2 euros numa determinada campanha, significa que 1000 leitores valem 2 euros.

Se o RPM foi de 9 euros, valem 9 euros.

Caro leitor, você não vale nada feitas bem as contas!

Um bom artigo - leia-se com boa audiência e não gerado por mera caça ao clique - pode valer, num meio mass market, 3 mil views, 5 mil views, 10 mil views. Na melhor cotação, vale no máximo, 90 euros.

A sério?

Queremos mesmo perpetuar nestes parâmetros os erros primordiais de um tempo que não sabia o que a internet iria trazer? Ou temos alguma inteligência restante para perceber que já é tempo de mudar regras antes de termos um mundo (ainda mais) inundado de parvoíce, superficialidade e mera caça ao clique?

 

Update a 14 de maio

 

Há dois dias escrevi sobre a imbecilidade e o embuste que se vive no reino digital. Ontem recebi várias mensagens sobre o assunto. E é curioso perceber que a maior parte das pessoas não percebe que - comercialmente - vale muito pouco para os anunciantes ou para as agências que negoceiam por eles. Se 1000 cliques valem 2 euros, cada um destes cliques vale ... 0,002€. Que os conteúdos valham pouco e que a malta que os produz ande à rasca há mais de uma década, é uma coisa; que todos nós, porque todos somos leitores, valhamos muito pouco, é outra. Não sei, mas de repente pareceu-me que se calhar devíamos falar mais desta perspectiva para ver se 'isto' deixa de ser um problema dos coitados-palermas-tinham-a-mania-que-eram-bons dos jornalistas.

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por sparks às 00:51


8 comentários

De Makiavel a 15.05.2015 às 12:36

Pelo que percebi da sua crónica, na era digital o pagamento dos editores é feito com a filosofia da revolução industrial: pagos à peça, a quem dá mais.

De sparks a 21.05.2015 às 20:29

Diria antes, pagos aos mil (por cada mil impressões). E mal pagos na maior parte dos casos, sempre atrás da cenoura que se muitos pagarem pouco, quase nada, poderá ser uma forma de vida. (já que negócio, do ponto de vista dos editores individuais, nesta fórmula dificilmente é).
Obrigda por passar por aqui e até breve

De Miguel Bastos a 15.05.2015 às 16:33

Caríssima Rute

Obrigado pela reflexão que nos trouxe.

Fazer um título apelativo sempre fez parte do jornalismo. Não de deve prescindir de um bom título, nem de um bom lead. Parte do sucesso do Independente, no anos 80, fez-se a partir dos títulos: irreverentes, com recurso a ditados populares, a referencias literárias, ou à cultura pop. Mas, primeiro tem que ser bem feito; depois, tem que ter conteúdo.

Falta isso tudo nos exemplo que deu e que lemos on line.

A parvoíce normalmente tem números (as 10 coisas, as 15 coisas), mas, pelos vistos não tem limites.

Cumprimentos,

Miguel Bastos

De sparks a 21.05.2015 às 20:33

Olá Miguel,
Obrigada pelo seu comentário.
Sou uma praticante convicta (como editora e como leitora) de bons títulos, bons leads, boas legendas e de todas as ferramentas de edição que contribuem para fazer um bom texto ainda melhor.
Mas,é como diz, nada disso vale quando o conteúdo não vale.
Até breve

De Desmagnetizado a 15.05.2015 às 17:09

Se vale pouco, fica a ideia: e deixarem de o fazer?
Falta acrescentar outro pormenor: quando título e respetiva ilustração do artigo nada têm a ver com a notícia.

De sparks a 21.05.2015 às 20:37

Certo. Claro. Óbvio.
Mas sabe que o inferno são os outros, não é?
Neste caso, o inferno é termos sido incapazes até aqui de contrariar as sucessivas vagas de parvoíce - primeiro porque toda a gente ia ficar rica com a internet, depois porque alguns iam ficar ricos e agora, em muitos dos casos, para alguns poderem simplesmente sobreviver.
Mas há que não perder a esperança. Até porque, e é importante não esquecer, no meio do que corre mal, há. felizmente, muita coisa boa, muita qualidade e cada vez mais pessoas a partilharem o que fazem. E isso é bom,
Obrigada por ter passado por aqui

De Desmagnetizado a 21.05.2015 às 20:37

Sempre às ordens

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