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X-Acto

Os x e os actos e algumas coisas de cortar os pulsos



Quinta-feira, 31.07.14

Um país à borla

 

A notícia sobre mais um recrutamento 'criativo' no mercado voltou a ser tema de conversa. Trata-se de um recrutamento para uma agência com o objectivo de trabalhar uma marca de um cliente real e, supõe-se, com uma factura real a ser cobrada. Não são estágios curriculares, mas sim, segundo os promotores,  uma oportunidade para "trabalhar no novo laboratório criativo da agência".

 

A coisa pode ser apresentada de várias formas.

1. trabalhar à borla

2. ganhar experiência

3. trabalhar à borla e ganhar experiência

4. ganhar formação à borla

5. ter 'visibilidade' no mercado de trabalho

6. facturar ao cliente com trabalho à borla

 

Como é fácil de ver, a palavra mais recorrente é mesmo borla. Nós aqui em Portugal somos o país das borlas. Basta olhar para as médias de subscrição de serviços pagos naqueles sites que oferecem uma parte 'à borla' versus outra parte 'paga'. Nós batemos qualquer estatística europeia: à borla tudo, pago, quase nada.

 

Para alguns tem tudo a ver com a pobreza endógena do país. 

Temo, em muitos casos, que tenha muito mais a ver com duas coisas que decorrem de outro tipo de pobreza. Uma é a chica-espertice. Outra é a subserviência.

 

Do ponto estritamente económico e empresarial, este ciclo é do pior que há. 

As empresas que podem pagar mais, tudo fazem para pagar nada. As empresas que estão no meio - a esmagadora maioria das empresas em Portugal - tudo fazem para simplesmente sobreviver. No manual de sobrevivência, a regra do  quase à borla é de ouro. Para poderem fazer preços quase à borla têm de ter trabalho à borla. O efeito disto escada abaixo é mais ou menos de aritmética pura: vamos tirando dinheiro de cima para baixo e quando chegamos à base de suporte de qualquer economia - o consumo privado - encontramos malta que não tem dinheiro para gastar. Logo não compra, logo as empresas maiores para manterem o seu status quo têm de espremer as outras - as que estão stuck in the middle. E assim sucessivamente. Com uma particularidade adicional: quando a malta do trabalho à borla consegue ganhar algum dinheiro, já tem doutoramente em todas as formas de viver à borla (estou a falar da malta 'normal'. não de quem passa a vida a pedir o iphone seguinte ao pai e à mãe). E assim sucessivamente.

 

Já mudávamos de vida, já.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por sparks às 13:46


1 comentário

De Haja coerência a 21.09.2014 às 22:23

O chico-espertismo está tão generalizado, que até uma empresa chamada Videonomics recorreu às suas técnicas na tentativa de subsistir.

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