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X-Acto

Os x e os actos e algumas coisas de cortar os pulsos



Segunda-feira, 13.07.15

A máquina não gosta de gatos

Em política, o que parece é. E quando a Alemanha impôs que a Grécia entregasse 50 mil milhões de euros das receitas geradas por privatizações de bens gregos a uma entidade por sua vez gerida pelo seu ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, o que pareceu, foi aquilo que realmente aconteceu. Não foi uma humilhação. Não foi uma submissão. Foi o fim de uma ideia de Europa com a qual a minha geração cresceu. Essa Europa acabou. Ponto final.

Sobre este fim tão anunciado, podemos tecer várias considerações que à lei de tão consideradas se tornaram banais. Não, a História não produz efeitos futuros. Sim, a memória dos povos fica, no seu pior, e vai-se, no seu melhor (lembramos os ódios, esquecemos como os vencemos). 

Enquanto decorriam as derradeiras horas do encontro do Eurogrupo, um amigo escrevia, em reposta a um post que publiquei, que 'a máquina não gosta de gatos'. A máquina é a Alemanha, os gatos são uma espécie traiçoeira produzida pelos gregos. Fiquei a pensar na expressão e em tudo o que significa.

A máquina não gosta de gatos. Pois, terá razões para isso. O que retira à máquina legitimidade moral para ter alergia aos gatos é, uma vez mais, a História. Neste caso,a  História destes últimos 20 anos de União Europeia liderada pela Alemanha. 

Se descontar aquilo que a História nos lembra e que nós esquecemos, não é difícil perceber os alemães no seu papel de credor ou de putativo credor-mor. O Estado grego - não os gregos - falhou. Vez atrás de vez. Falhou reformas, falhou pagamentos, falhou com a palavra. Não é digno de confiança numa avaliação moral - e factual.

Logo, esgotada qualquer confiança, há que obter garantias que desta vez será diferente. Os 50 mil milhões sob gestão externa são essa garantia. Os 50 mil milhões sob gestão da Alemanha de Schäuble passam a ser outra coisa.

Mas continuemos na linha de raciocínio. O Estado grego está longe de ser um exemplo que possa orgulhar os gregos. Mas não está sozinho. Portugal não é a Grécia? Ah, podem crer que é. Muito mais do que os coros afinados são capazes de admitir. Menos audaz na mentira e na fraude - aquela coisa portuguesa de ter respeitinho, cuidadinho e outros 'inhos' ajudou que alguns embustes fossem bem menores - mas, na mesma, cheio de compadrios, privilégios eternizados, combinações de compinchas à volta de um mesmo tacho. O tacho da riqueza que se produz em Portugal e o tacho do dinheiro que a Europa mandou para cá anos a fio.

Ao longo destes 30 anos, não só se sucederam as pequenas fraudes diárias, como se adiaram de ano para ano as ditas reformas estruturais que tornariam a Europa económica e social mais igual entre si e que transformariam o projecto europeu num verdadeiro roteiro de progresso e desenvolvimento. A máquina deu-se bem com os gatos. Recebeu-os em sua casa, afagou os costados à maioria e, não menos importante, fez negócio e ganhou dinheiro com a gataria. Até perder. E os gatos só passaram a ser um animal destestável quando a máquina perdeu dinheiro. Aí foi decretada oficialmente a alergia do reino europeu aos gatos e o remédio para o seu extremínio ou, no mínimo, castração.

O problema da Europa nunca foi financeiro. Menos ainda num tempo em que o dinheiro se tornou uma suposição, uma presunção, mais do que uma evidência. O problema da Europa -e  muito em concreto o problema dos gregos e dos portugueses - foi sempre e antes de tudo social e cultural. Era para isso que precisávamos da Europa. Para fazer uma profunda transformação em sociedades que herdaram pobrezas e pensamento limitado de geração em geração. Sociedades com elites fracas, podres, mesquinhas. Sociedades que precisavam do sopro de quem há mais tempo vivia melhor e em liberdade - aquela liberdade que só temos quando não precisamos de dizer que sim quando é não apenas para sobreviver.

Gerida como um projecto financeiro-contabilístico-oportunístico, a grande Europa diluiu-se nas misérias nacionais. Foi cumplíce dos miseráveis. Extorquiu e pactuou com uns e com outros. 

Na Grécia, como em Portugal, o que era continuou a ser. Os Schäubles da máquina, que de forma tão exibicionista crucificaram Tsipras e a sua tribo, foram gatinhos fofinhos com toda uma corte de políticos que desfilaram no pelourinho das soberanias nacionais. Não sentiram um ímpeto moralista com os governos de Cavaco Silva. Frau Merkel adorou conviver com o governo de Sócrates. O mesmo com socialistas e sociais democratas da Grécia.Tudo estava bem enquanto a máquina facturava.

No reino dos gatos, também tudo corria bem até correr mal. Umas escaramuças aqui e ali, mas enquanto o dinheiro correu, a moralidade ficou na despensa. Esta é a nossa grande responsabilidade - de portugueses e de gregos. Os políticos que nos crucificaram, como Schäuble crucificou Tsipras, são aqueles que nós escolhemos. Porque enquanto sobraram umas migalhas aqui e ali, e o banco emprestava dinheiro barato, e havia aumentos na Função Pública, tudo estava bem. Lá íamos votar ao domingo com aquele espírito de 'voto e aproveito tomo uma bica', de vez em quando lá vinha o voto da pequena raiva porque este ou aquele gajo mexeu com o queixo destes ou daqueles, mas, feitas as contas, quisemos sempre mais do mesmo, porque já sabemos com o que contamos e somos um povo que gosta da ordem e de não fazer farinha.

Na Grécia, não foi diferente. Os mesmos, com os mesmos tiques, e um mesmo povo que enquanto houvesse pão e vinho dançava à mesma música.

Os países da Europa rica também erraram. Também tiveram políticos corruptos. Também falharam metas. Mas, et voilá, nessa Europa que hoje, dia 13 de julho, é a Europa dos outros, erraram menos em causa própria. Enquanto em Portugal e na Grécia se faziam arranjos e arranjinhos para benefício de poucos e a serem pagos pelos impostos de muitos, noutras paragens fazia-se exactamente o inverso. E é por isso que Angela Merkel reuniu tanta unanimidade entre os alemães - a máquina ataca quem está fora e protege quem está dentro. 

Era por isso que precisávamos de uma Europa. De uma Europa dos bons. De uma Europa liderada por homens e mulheres generosos, com sabedoria, orientados para algo maior do que eles.

Portugueses e gregos, e não o Estado português e o Estado grego, foram entregues à fera para que nos devorasse. Com juros, com salários e, no fim do dia, com a própria carne.

Shylock está no meio de nós. Adeus, Europa.

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por sparks às 20:30


3 comentários

De amadeu escorcio a 14.07.2015 às 17:02

Pois é, democracia, solidariedade, etc são bons quando nos dão jeito e não nos tocam no bolso. Olha se os outros europeus tivessem dito dos portugueses: o quê? emprestar dinheiro aqueles gastadores que andaram a fazer figura de ricos (ou de novos-ricos)?

De João Carlos Reis a 15.07.2015 às 01:47

Prezado amadeu escorcio,
não foram as pessoas em particular de qualquer país que viveram acima das suas possibilidades ou «aqueles gastadores que andaram a fazer figura de ricos (ou de novos-ricos)» (salvo alguns , mas esses casos foram/são resolvidos individualmente um a um).
O que aconteceu foi que os governos de cada país (no caso vertente Portugal e a Grécia) gastaram (também em cambalachos) acima das possibilidades da riqueza gerada pelo próprio país. O desplante é que esses adultos responsáveis, engravatados e respeitáveis fizeram isso tudo tendo a noção exacta do que estavam a fazer e tendo a consciência do que iria acontecer caso o país não produzisse a riqueza necessária para esses gastos para os quais não foram mandatados por absolutamente ninguém (excepto os da sua igualha). Ou seja: em vez de andarem a gizar planos (e a pô-los em prática), juntamente com o empresariado nacional (pois sozinhos também não se consegue fazer grande coisa), de modo a que se desenvolva economicamente a Pátria para que os seus cidadãos tenham melhor nível de vida e se gere a riqueza suficiente para as despesas administrativas, não fazem isso... dá muito trabalho... e depois haja quem pague (vulgo «nós»), que eles saltam do barco...
A mim só me enganaram nas duas primeiras eleições em que participei após atingir a maioridade. A partir daí abri os olhos e nunca mais votei em qualquer partido que tenha assento parlamentar.

De amadeu escorcio a 15.07.2015 às 14:59

Caro João Carlos.
!00% de acordo consigo quando fala sobre os governantes batoteiros.
E isso serve realmente para a Grécia como para Portugal (pena é que os governantes portugueses sejam tão submissos e não tenham tentado renegociar a nossa dívida). Quanto às pessoas que quiseram viver com mais do que tinham, podia apontar-lhe n casos de pessoas que fogem aos impostos há anos neste país, das fraudes com dinheiros da CEE e de algumas reformas e pré-reformas fraudulentas, de pedidos de empréstimos para os quais não se tinha a certeza de poder pagar, as despedidas de solteiros no Brasil ou México (em que por vezes se paga mais por pessoa que na boda), enfim , coisas que todos nós, se não andarmos distraídos na vida conhecemos de perto ou de longe.Isto não será viver acima das possibilidades? E não foram só os Salgados e os Duartes Limas etc .Foi também por muito que queiramos tapar o sol com a peneira o zé povinho.
Devemos pagar na integra os dislates de governos incompetentes ou mesmo corruptos? Em Direito a procedência gera novas procedimentos legais mas é pena que só sejam aplicadas quando convém. Refiro-me aos argumentos para perdão parcial (e repare que os gregos não falam em perdão total) da dívida da Alemanha no pós.guerra (com um perdão pela parte da Grécia de sessenta e tal por cento).
Quanto a não votar nos partidos que nos últimos 30 anos nos arruinaram estou totalmente de acordo consigo: há que tirar-lhes o tacho ou pelo menos condicioná-los em tamanho para que eles não se sintam seguros para fazer todas as tropelias que lhes der na cabeça incompetente ou/e corrupta.

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